Carlos Primo Braga, ex-diretor de política econômica e dívida do Banco Mundial e professor associado da Fundação Dom Cabral, classificou o orçamento de 2027 apresentado pelo governo como uma "obra de ficção" — uma crítica dura que reforça um coro de análises pessimistas sobre a situação fiscal do Brasil nos próximos anos.

Por Que Ele Chama de "Obra de Ficção"

Segundo Braga, o orçamento se apoia em expectativas otimistas demais de crescimento e arrecadação para projetar um superávit — a mesma projeção de R$ 18,6 bilhões de superávit ajustado que já mostramos aqui. O problema, na visão dele, é que o mercado financeiro trabalha com uma expectativa bem diferente: a de déficits primários continuados, não de um resultado positivo.

Esse tipo de divergência entre a projeção oficial do governo e a expectativa do mercado financeiro não é incomum, mas o tamanho da diferença apontada por Braga é o que chama atenção: quando analistas experientes classificam um documento oficial como "ficção", geralmente é porque as premissas usadas no cálculo — como o ritmo de crescimento do PIB ou o volume de arrecadação esperado — parecem descoladas da realidade observada nos indicadores mais recentes da economia.

O Desequilíbrio Nos Números

Como evidência do problema estrutural, Braga aponta que, desde 2023, as receitas do governo cresceram 17% em termos nominais, enquanto as despesas subiram 22% no mesmo período — um ritmo de crescimento de gastos superior ao da arrecadação que, mantido, torna cada vez mais difícil equilibrar as contas sem medidas adicionais de ajuste.

A Dívida Pode Chegar a 96% do PIB

A dívida bruta do governo já está em 82% do PIB pela metodologia do Banco Central — mas, segundo Braga, poderia alcançar 96% até o fim do ano se calculada pela metodologia usada pelo FMI, que considera critérios distintos. É uma diferença expressiva, que mostra como a forma de medir a dívida pode alterar significativamente a percepção sobre o tamanho real do problema.

Essa diferença de metodologia não é um mero detalhe técnico: agências de classificação de risco e investidores internacionais costumam observar de perto justamente a métrica do FMI para comparar o Brasil com outros países emergentes. Um salto de 82% para 96% do PIB, ainda que apenas na forma de calcular, pode influenciar a percepção de risco do país no exterior, com efeitos práticos sobre o custo de captação externa e a atratividade do Brasil para investimento estrangeiro.

O Que É Estagflação e Por Que Ele Acha Inevitável

Braga defende que o Brasil enfrenta um cenário praticamente inevitável de estagflação em 2027 — a combinação de crescimento econômico baixo (perto de 2%) com inflação próxima do teto da meta, de 5%. Ele descreve essa combinação como uma crise "contratada", ou seja, já praticamente definida pelas condições atuais, independentemente do resultado das eleições.

Como Isso Se Conecta com o Endividamento das Famílias

O diagnóstico de Braga ecoa outros sinais já mostrados aqui: 82% dos brasileiros estavam endividados em julho de 2026, com 83,9 milhões de pessoas negativadas, enquanto o consumo das famílias caiu 0,4% no segundo trimestre. São números que se conectam diretamente ao alerta que já detalhamos sobre o endividamento das famílias em nível recorde — o cenário macroeconômico difícil e o aperto no orçamento doméstico caminham juntos, um alimentando o outro.

O Que Fazer Diante Desse Cenário

Previsões de estagflação e crise fiscal, por mais alarmantes que pareçam, não mudam o que está ao seu alcance controlar diretamente: manter uma reserva de emergência, evitar dívidas caras e acompanhar de perto o próprio orçamento continuam sendo as defesas mais eficazes contra um cenário macroeconômico adverso, independentemente de como ele se desenrolar nos próximos meses.

Vale lembrar que análises como a de Braga são projeções baseadas em cenários e premissas, não certezas absolutas — o próprio histórico econômico brasileiro está repleto de previsões pessimistas que não se confirmaram exatamente como esperado, assim como o inverso também já aconteceu. O valor prático desse tipo de alerta está menos em prever o futuro com precisão, e mais em reforçar a importância de se preparar financeiramente para múltiplos cenários possíveis, bons ou ruins. Independentemente de a estagflação prevista se confirmar exatamente como descrita, o diagnóstico de fundo — dívida pública elevada, famílias endividadas e crescimento fraco convivendo ao mesmo tempo — já é uma realidade presente, não apenas uma previsão para o futuro. Esse é justamente o motivo pelo qual vale acompanhar esse tipo de análise com atenção, mesmo sem concordar com cada detalhe do diagnóstico apresentado.

Aviso importante: este conteúdo tem caráter exclusivamente educacional e informativo, e não constitui recomendação de investimento, crédito ou qualquer produto financeiro. Antes de tomar uma decisão, avalie sua situação e, se necessário, procure orientação profissional habilitada.

Fontes

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Escrito por Equipe Ponte Financeira

Conteúdo revisado com base em fontes oficiais (BCB, CVM, B3, Serasa) — ver seção "Fontes" de cada artigo.